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Sua razão é seu maior engano

SUA RAZÃO É SEU MAIOR ENGANO

“para que, vendo, vejam e não percebam; e, ouvindo, ouçam e não entendam; para que não se convertam e sejam perdoados.” – Marcos 4:12

Esse é um dos versículos mais difíceis de todo o evangelho. À primeira leitura, parece que Jesus usa parábolas de propósito para impedir que as pessoas entendam e sejam perdoadas. Como se houvesse uma intenção deliberada de esconder a salvação de alguém.

Mas o problema não está em Jesus. Está na palavra “para que”.

No grego, a partícula usada por Marcos é ambígua. Ela pode significar finalidade: “para que não entendam” pode significar consequência ou “de modo que não entendem”. Mateus, narrando o mesmo episódio, escolheu a segunda leitura e escreveu “porque vendo não veem”. E algumas traduções, deixam isso explícito: “se não, eles voltariam para Deus, e ele os perdoaria.”

A diferença muda tudo. Jesus não está trancando a porta por fora, ele está descrevendo uma porta que JÁ ESTAVA trancada por dentro.

Porque “vendo, não veem” não é incapacidade, é DECISÃO. É o comportamento preconceituoso de quem rejeita qualquer ideia ou possibilidade que não seja aquela que já ACEITOU, já compreendeu, já DECIDIU. A informação NOVA chega, a evidência NOVA aparece, a parábola DEMONSTRA, porém não encontra ninguém disposto a recebê-la. Não porque a pessoa não possa entender, mas porque entender CUSTARIA CARO demais.

Carol Dweck, psicóloga de Stanford, chamou isso de MINDSET FIXO, em contraste com o MINDSET DE CRESCIMENTO. A mente de mindset fixo não processa o NOVO porque o novo ameaça a identidade construída sobre JÁ SABER, já ser, já estar CERTO. Ver de verdade exigiria admitir que a POSIÇÃO anterior era incompleta. Então, pessoa não vê; mas não porque foi IMPEDIDA por outro, mas porque ver ameaça quem ela acredita que é.

E aqui está o ponto mais afiado, que desenvolvi no meu livro Adaptagilidade: é emocional, não lógico. A pessoa não rejeita por FALTA de argumento. Ela rejeita primeiro, e depois RECRUTA argumentos para sustentar a rejeição. A presunção de estar certo ANTECEDEP a conversa, então a conversa nunca teve chance. O que parece debate é só a defesa de uma conclusão que já estava fechada antes da primeira palavra.

Isso é o mesmo mecanismo que trabalhei em “Cegos pela própria expectativa”, mas aqui há uma camada a mais. Lá era o FILTRO que distorce o novo para caber no velho. Aqui é a DECISÃO emocional prévia que sequer permite o novo entrar. Um funciona como lente da compreensão, o outro é uma porta TRANCADA por dentro.

E é por isso que sua RAZÃO pode ser seu maior engano. Você acredita que chegou às suas conclusões pensando, quando na maioria das vezes você apenas justificou, com lógica e argumentos, o que JÁ HAVIA decidido emocionalmente. A razão deixa de ser instrumento de LUCIDEZ e vira advogada de defesa do EGO. Ela não busca a VERDADE, ela protege a posição que seu EGO definiu como verdade.

Os fariseus que ouviram Jesus não eram burros. Eram brilhantes, estudados, especialistas na Lei. E exatamente por isso não VIRAM nada. A inteligência deles não estava a serviço da verdade, estava a serviço da conclusão que já haviam assinado: “esse homem não pode ser quem diz ser.” Quando a parábola chegou, não encontrou espaço, um solo; encontrou uma SENTENÇA já dada.

Por isso a argumentação raramente é uma BUSCA. Geralmente é a defesa do EGO e a necessidade de sustentar a imagem social que o sábio projetou de si mesmo. A dureza não é força, é uma camada rígida de PROTEÇÃO em torno de uma sabedoria autoconcebida e autocentrada. Quanto mais alguém PRECISA parecer CERTO, mais grossa fica essa casca, e menos VIDA passa por ela.

Essa DUREZA tem um preço silencioso: ela envelhece a mente. Trocamos a mente de criança, que é aberta, CURIOSA, disposta a se FLEXIBILIZAR, por uma mente religiosa, fechada, que já sabe tudo e não cabe mais nada. Perdemos a CURIOSIDADE em troca do ORGULHO de nós mesmos. E uma mente que não se FLEXIBILIZA mais, parou de crescer, mesmo que continue acumulando informação. Toda informação se torna ESCRAVA da sua POSIÇÃO. Não há mais RENOVAÇÃO.

Aqui, a pergunta honesta não é sobre eles, é sobre eu e você. Em que área da sua vida você já DECIDIU antes de ouvir? Qual conversa você FINGE ter enquanto defende uma conclusão fechada por dentro? E o que você não consegue ver hoje, não por falta de evidência, mas porque enxergar exigiria admitir que você estava INCOMPLETO?

Leia a Bíblia como uma carta de AMOR.

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Ricardo Rocha

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